OS LICORES E OS PROCESSOS DE FABRICAÇÃO NA AMÉRICA
PORTUGUESA:
O autor inicia
por uma busca por onde se iniciou os processos de fabricação dos licores e da
cachaça e quem eram os responsáveis. Aos licores a responsabilidade da produção
e desenvolvimento das receitas eram atribuídas aos doceiros entre os séculos
XVII e XVIII. Talvez os portugueses considerassem um doce em forma de bebida, o
seu processo era respeitado com uma receita culinária.
O
autor do Manual do destilador (C.J) de 1883, aponta o licor como uma bebida
tônica para melhorar o bem-estar das famílias que trabalhavam na horticultura,
este “bem-estar” poderia ser usado para aumentar as horas de trabalho destes
horticultores ou simplesmente para relaxar depois do trabalho, o autor não nos
revela a verdadeira intenção por falta de fontes, por não se tratar de seu
ponto de vista ou o próprio autor do manual não se faz esclarecer. Anterior ao Manual do Destilador o Traité des
Aliments de Louis Lemery (1705) os licores e aguardentes eram obtidos de
diferentes materiais, como os indianos que fabricavam bebidas a partir do
arroz, tâmaras e suco de ervas. Em lugares de produção de açúcar se retiravam a
partir da destilação da cana-de-açúcar que se chamava Rum segundo Louis Lemery.
Luís
da Câmara Cascudo dedicou um livro com muitas referencias sobre a cachaça ou o
que Louis Lemery chamou de Rum. Uma das referencias que Luís da Câmara nos
revela é que o termo cachaça surgiu no Brasil para designar a bebida obtida da
cana-de-açúcar, melaço ou do caldo. De acordo com Luís da Câmara Cascudo a
cachaça portuguesa do século XVI era uma aguardente obtida a partir das borras
das uvas, conhecida hoje como bagaceira. O Rum era o nome utilizado nas
colônias inglesas para designar o “vinho obtido da cana-de-açúcar”, segundo
Tousanit-Samat(1982) era uma derivação de mambullion ou mambustion, termos do
dialeto crioulo de Barbados.
A
partir dos inventários da época o autor nos revela a existência de alambiques
de barro ou cobre, dependendo das posses e sofisticação do fabricante em São Paulo e Santana do
Paraíba do século XVII. As aguardentes e
licores eram fabricados a partir da destilação ou fermentação na América
portuguesa, foram os portugueses que introduziram a técnica de destilação na
região, os indígenas criavam suas aguardentes a partir da fermentação da
mandioca, milho, caju e outros, já na África a palmeira de dendê, milhos ou
infusões de sementes eram usadas para obter aguardente. Em obras como o “Manual
do Destillador” recomendava-se o processo de destilação quente, pois o processo
frio causava dores de cabeça.
Alguns
depoimentos de viajantes como o de Saint-Hilare sobre sua viagem ao Rio de
Janeiro e Minas em 1817, ele comenta que a população era na sua maioria formada
por pobres apesar da riqueza da terra e que apreciavam a aguardente de cana (cachaça),
dos escravos a elite branca. O consumo era maior dentro da classe pobre formada
principalmente por negros livres ou escravos sem distinção de sexo. Em outra
observação do viajante, referindo-se aos fazendeiros dos arredores de Guanhões,
sobre a preferência da produção da aguardente ao invés da produção do melaço
por causa do grande consumo dos negros empregados no distrito visinho,
Diamantina. Os viajantes Leithold e Rango na visita ao Rio de Janeiro em 1819,
consideravam a cachaça de gosto ruim e mais forte que a aguardente de trigo.
Há
perguntas que o autor nos traz que os relatos de viajantes não podem nos
responder sozinhos como: Quem estava envolvido na produção, distribuição,
consumo e qual era o espaço em que a cachaça circulava na sociedade? O uso da
fontes como: inventários, registros de escritura doméstica, correspondências
oficiais e a legislação da época poderiam servir de fontes alternativas segundo
o autor.
Em
meados do século XVII, Johann Nieuhof relatou o gosto dos índios pela cachaça,
mas não era permitido a eles levar para a aldeia para evitar embriagues. Isso
mostra uma tentativa de controlar o consumo dos indígenas, mas também uma forma
de criar uma dependência da distribuição impedindo a formação de um estoque e
usar isso para influenciar os indígenas para contribuírem de acordo com a
vontade dos portugueses. Saint-Hilaire diz que os índios são apaixonados pela
aguardente e que insistiam em mais doses depois da primeira, Ave-Lallemam que
esteve no Brasil cinqüenta anos depois de Saint-Hilaire utilizava a cachaça
para manter o interesse dos índios no trabalho, já João Mauricio Regendas que
esteve no Brasil entre 1825 e 1830, também associava a cachaça com as classes
pobres e como um remédio para as pessoas que consumiam milho, feijão e
carne-seca consideradas por Regendas como alimentos pesados e nocivos.
Estes
relatos nos indica o consumo da cachaça como alimento básico e diário das
classes menos favorecidas enquanto os mais abonados a utilizavam como
aperitivo, o grande numero de vendas com pouco recurso mostrava ser sua
principal função na venda de cachaça e um local de socialização como observados
por Saint-Hilaire. Costumes mantidos até os dias de hoje no século XXI. Já outros
viajantes como George Gardner também observou o consumo da cachaça por grande
parte das mulheres das classes menos favorecidas, já Tschudi nos relata o
consumo dos escravos, que compravam a aguardente de forma ilegal utilizando
dinheiro ganho com trabalhos avulsos. A cachaça oferecia um complemento
alimentar (pelo seu teor calórico) para os pobres e uma bebida “espirituosa”, ou
seja, alcoólica.
Aos
fazendeiros ou abastados o consumo da aguardente era na forma de aperitivo ou
após o jantar, utilizando e fabricando licores finos e de outros sabores como
laranja, caju e abacaxi. Uma prática persistente até os nossos dias é oferecer
este tipo de bebida as visitas e amigos como um fazendeiro dos arredores do Rio
de Janeiro ofereceu a John Mawe.
No período
colonial eram constantes as referencias sobre o consumo excessivo de cachaça
nas classes desfavorecidas, negros livres ou escravos, onde membros da igreja e
da elite branca impunham trabalho aos escravos nos domingos e feriados para
evitar o ócio e as bebedeiras das festas. A embriagues aparece também nos
registros da policia do Rio de Janeiro do século XIX, onde eram registrados o
fato do africano ou afro-descendente ter sido prezo por desordem e bebendo. O
mesmo se seguia nos hospitais da Misericórdia com registros sobre os males
causados pela bebida.
A produção de
cachaça era usada como moeda de troca no tráfico de escravos e seu consumo era
expansivo atingindo até as terras portuguesas na Europa que acabou por ser proibida duas vezes. Em
1649 até 1661 limitou-se a produção em todo o estado do Brasil e proibiu-se a
produção do “vinho de mel”, já em 1690 D. Pedro II de Portugal proíbe o envio
para Angola, mas é revogada com a descoberta do ouro.
Entre os
relatos dos viajantes que passaram pelo Brasil e as fontes analisadas pelo
autor, mostra claramente a discriminação de classes sociais e o preconceito com
o negro e o índio. Existe também a diferença da cachaça e do modo como é
tratado aquele que exagera no consumo, quando o branco fica bêbado ele
simplesmente exagerou um pouco e quando o negro fica bêbado ele é vagabundo.
Sobre a bebida (cachaça) podemos tirar algumas conclusões como: a fabricação
era em grande escala em relação a população de maioria escravos e escravos
libertos que eram os maiores consumidores, o preço devia ser baixo, pois fazia
parte da alimentação básica do pobre e escravo, a cachaça mais refinada era de
consumo das elites brancas, as vendas faziam ponto de encontro para a
socialização da população regada com aguardente, o vicio do álcool nas classes menos favorecidas poderia ser
causada pela vida de sofrimentos e fome, causando um desgosto pela vida e se
utilizando da cachaça para aliviar o profundo descontentamento e assim levando ao alcoolismo.
BIBLIOGRAFIA
ALGRANTI, Leila
Mezan. Aguardente de cana e outras aguardentes: por uma história da produção e
do consumo de licores na América portuguesa. VENÂNCIO, Renato Pinho; CARNEIRO,
Henrique. (orgs.). Álcool e drogas na história do Brasil. São Paulo: Alameda,
Belo Horizonte: PUCMinas, 2005.
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