sexta-feira, 3 de maio de 2013

Resenha do Artigo - Aguardente de cana e outras aguardentes: por uma história da produção e do consumo de licores na América portuguesa


OS LICORES E OS PROCESSOS DE FABRICAÇÃO NA AMÉRICA PORTUGUESA:

             O autor inicia por uma busca por onde se iniciou os processos de fabricação dos licores e da cachaça e quem eram os responsáveis. Aos licores a responsabilidade da produção e desenvolvimento das receitas eram atribuídas aos doceiros entre os séculos XVII e XVIII. Talvez os portugueses considerassem um doce em forma de bebida, o seu processo era respeitado com uma receita culinária.
            O autor do Manual do destilador (C.J) de 1883, aponta o licor como uma bebida tônica para melhorar o bem-estar das famílias que trabalhavam na horticultura, este “bem-estar” poderia ser usado para aumentar as horas de trabalho destes horticultores ou simplesmente para relaxar depois do trabalho, o autor não nos revela a verdadeira intenção por falta de fontes, por não se tratar de seu ponto de vista ou o próprio autor do manual não se faz esclarecer.  Anterior ao Manual do Destilador o Traité des Aliments de Louis Lemery (1705) os licores e aguardentes eram obtidos de diferentes materiais, como os indianos que fabricavam bebidas a partir do arroz, tâmaras e suco de ervas. Em lugares de produção de açúcar se retiravam a partir da destilação da cana-de-açúcar que se chamava Rum segundo Louis Lemery.

            Luís da Câmara Cascudo dedicou um livro com muitas referencias sobre a cachaça ou o que Louis Lemery chamou de Rum. Uma das referencias que Luís da Câmara nos revela é que o termo cachaça surgiu no Brasil para designar a bebida obtida da cana-de-açúcar, melaço ou do caldo. De acordo com Luís da Câmara Cascudo a cachaça portuguesa do século XVI era uma aguardente obtida a partir das borras das uvas, conhecida hoje como bagaceira. O Rum era o nome utilizado nas colônias inglesas para designar o “vinho obtido da cana-de-açúcar”, segundo Tousanit-Samat(1982) era uma derivação de mambullion ou mambustion, termos do dialeto crioulo de Barbados.

            A partir dos inventários da época o autor nos revela a existência de alambiques de barro ou cobre, dependendo das posses e sofisticação do fabricante em São Paulo e Santana do Paraíba do século XVII.  As aguardentes e licores eram fabricados a partir da destilação ou fermentação na América portuguesa, foram os portugueses que introduziram a técnica de destilação na região, os indígenas criavam suas aguardentes a partir da fermentação da mandioca, milho, caju e outros, já na África a palmeira de dendê, milhos ou infusões de sementes eram usadas para obter aguardente. Em obras como o “Manual do Destillador” recomendava-se o processo de destilação quente, pois o processo frio causava dores de cabeça.

            Alguns depoimentos de viajantes como o de Saint-Hilare sobre sua viagem ao Rio de Janeiro e Minas em 1817, ele comenta que a população era na sua maioria formada por pobres apesar da riqueza da terra e que apreciavam a aguardente de cana (cachaça), dos escravos a elite branca. O consumo era maior dentro da classe pobre formada principalmente por negros livres ou escravos sem distinção de sexo. Em outra observação do viajante, referindo-se aos fazendeiros dos arredores de Guanhões, sobre a preferência da produção da aguardente ao invés da produção do melaço por causa do grande consumo dos negros empregados no distrito visinho, Diamantina. Os viajantes Leithold e Rango na visita ao Rio de Janeiro em 1819, consideravam a cachaça de gosto ruim e mais forte que a aguardente de trigo.

            Há perguntas que o autor nos traz que os relatos de viajantes não podem nos responder sozinhos como: Quem estava envolvido na produção, distribuição, consumo e qual era o espaço em que a cachaça circulava na sociedade? O uso da fontes como: inventários, registros de escritura doméstica, correspondências oficiais e a legislação da época poderiam servir de fontes alternativas segundo o autor.

            Em meados do século XVII, Johann Nieuhof relatou o gosto dos índios pela cachaça, mas não era permitido a eles levar para a aldeia para evitar embriagues. Isso mostra uma tentativa de controlar o consumo dos indígenas, mas também uma forma de criar uma dependência da distribuição impedindo a formação de um estoque e usar isso para influenciar os indígenas para contribuírem de acordo com a vontade dos portugueses. Saint-Hilaire diz que os índios são apaixonados pela aguardente e que insistiam em mais doses depois da primeira, Ave-Lallemam que esteve no Brasil cinqüenta anos depois de Saint-Hilaire utilizava a cachaça para manter o interesse dos índios no trabalho, já João Mauricio Regendas que esteve no Brasil entre 1825 e 1830, também associava a cachaça com as classes pobres e como um remédio para as pessoas que consumiam milho, feijão e carne-seca consideradas por Regendas como alimentos pesados e nocivos.

            Estes relatos nos indica o consumo da cachaça como alimento básico e diário das classes menos favorecidas enquanto os mais abonados a utilizavam como aperitivo, o grande numero de vendas com pouco recurso mostrava ser sua principal função na venda de cachaça e um local de socialização como observados por Saint-Hilaire. Costumes mantidos até os dias de hoje no século XXI. Já outros viajantes como George Gardner também observou o consumo da cachaça por grande parte das mulheres das classes menos favorecidas, já Tschudi nos relata o consumo dos escravos, que compravam a aguardente de forma ilegal utilizando dinheiro ganho com trabalhos avulsos. A cachaça oferecia um complemento alimentar (pelo seu teor calórico) para os pobres e uma bebida “espirituosa”, ou seja, alcoólica.

            Aos fazendeiros ou abastados o consumo da aguardente era na forma de aperitivo ou após o jantar, utilizando e fabricando licores finos e de outros sabores como laranja, caju e abacaxi. Uma prática persistente até os nossos dias é oferecer este tipo de bebida as visitas e amigos como um fazendeiro dos arredores do Rio de Janeiro ofereceu a John Mawe.

No período colonial eram constantes as referencias sobre o consumo excessivo de cachaça nas classes desfavorecidas, negros livres ou escravos, onde membros da igreja e da elite branca impunham trabalho aos escravos nos domingos e feriados para evitar o ócio e as bebedeiras das festas. A embriagues aparece também nos registros da policia do Rio de Janeiro do século XIX, onde eram registrados o fato do africano ou afro-descendente ter sido prezo por desordem e bebendo. O mesmo se seguia nos hospitais da Misericórdia com registros sobre os males causados pela bebida.

A produção de cachaça era usada como moeda de troca no tráfico de escravos e seu consumo era expansivo atingindo até as terras portuguesas na Europa  que acabou por ser proibida duas vezes. Em 1649 até 1661 limitou-se a produção em todo o estado do Brasil e proibiu-se a produção do “vinho de mel”, já em 1690 D. Pedro II de Portugal proíbe o envio para Angola, mas é revogada com a descoberta do ouro.

Entre os relatos dos viajantes que passaram pelo Brasil e as fontes analisadas pelo autor, mostra claramente a discriminação de classes sociais e o preconceito com o negro e o índio. Existe também a diferença da cachaça e do modo como é tratado aquele que exagera no consumo, quando o branco fica bêbado ele simplesmente exagerou um pouco e quando o negro fica bêbado ele é vagabundo. Sobre a bebida (cachaça) podemos tirar algumas conclusões como: a fabricação era em grande escala em relação a população de maioria escravos e escravos libertos que eram os maiores consumidores, o preço devia ser baixo, pois fazia parte da alimentação básica do pobre e escravo, a cachaça mais refinada era de consumo das elites brancas, as vendas faziam ponto de encontro para a socialização da população regada com aguardente, o vicio do álcool  nas classes menos favorecidas poderia ser causada pela vida de sofrimentos e fome, causando um desgosto pela vida e se utilizando da cachaça para aliviar o profundo descontentamento e assim  levando ao alcoolismo.    

 
BIBLIOGRAFIA

ALGRANTI, Leila Mezan. Aguardente de cana e outras aguardentes: por uma história da produção e do consumo de licores na América portuguesa. VENÂNCIO, Renato Pinho; CARNEIRO, Henrique. (orgs.). Álcool e drogas na história do Brasil. São Paulo: Alameda, Belo Horizonte: PUCMinas, 2005.

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