sexta-feira, 3 de maio de 2013

A ESCRITA E O ESCRIBA DO EGITO ANTIGO


A ESCRITA E O ESCRIBA DO EGITO ANTIGO

              O estudante escriba passava por rígida formação, ele estudava inclusive nos dias festivos, segundo datas marcadas em alguns papiros literários onde o aluno anotou todos os dias o trabalho que fazia, a falta de atenção podia ser castigada com bastonadas nos dedos do distraído ou por erros de grafia.
Não há evidencias de escolas no Antigo Império, exceto na corte, provavelmente os professores eram os pais que ensinavam os filhos e outros aprendizes privilegiados. No decorrer do Médio Império, aparece a expressão “Casa de Instrução” o que provavelmente seria o que chamamos de escola. Somente depois do Novo Império, começam a aparecerem dados sobre a idade dos alunos, currículos e dados didáticos. A partir da 11° a 12° dinastias, cerca de 2130-1786 a.C o uso do livro de texto tornando-se cada vez mais freqüente.
O aprendiz ingressava com quatro anos onde saia com dezesseis e com apenas o titulo simples de escriba.
Exercícios em ostracas (pedaços de calcário ou cerâmica), contem enumerações de partes do corpo, de países estrangeiros, de festas religiosas, cópias de textos clássicos e sua transcrição para a língua vulgar. Depois os alunos passavam ao exercício de composição e tinham acesso a cartas privadas e administrativas, finalmente aos textos religiosos, em particular os de rezas a Thot, deus da sabedoria, o qual era invocado no inicio de cada lição e nas horas de angústia.
Após certo tempo, os estudantes alcançavam os textos literários, os de sabedoria e finalizavam copiando os romances e os contos de ficção.
Quando o escriba cometia um erro ele apagava com a língua, pois a tinta era com base em carvão, mas parece ter havido um pedaço de pano para isso.
Quando escreviam em um papiro sob a forma de rolos, os Egípcios sempre sentavam, essa é aposição que aparece nas estátuas dos escribas, na posição agachada o escriba esticava sua tanga para que ela oferecesse um suporte firme. Nessa posição, ele segurava na mão esquerda o rolo do qual ia puxando um pedaço de comprimento suficiente para escrever, com a mão direita, da direita para a esquerda, a paleta ficava no chão ao seu lado ou a sua frente e muitas vezes ele guardava seus pinceis atrás da orelha direita.
Durante a XII Dinastia uma mudança da linha vertical para a horizontal aconteceu, talvez pela facilidade de borrar ao escrever, ambas as direções passaram a ser usadas e até no mesmo manuscrito. Com exceção dos textos religiosos e do Livro dos Mortos eram escritos até o fim em linhas verticais da esquerda para a direita.
No decorrer da décima oitava XVIII dinastia, aparece na escrita Egípcia a expressão “Kap” referente a uma parte do palácio que poderia ser como uma escola maternal onde filhos de governantes estrangeiros eram atendidos.
O ensino no Egito não era feito apenas para a formação de escribas. Eram necessários professores nos palácios reais para príncipes e princesas, para os filhos de monarcas estrangeiros que lá iam estudar. Além da escrita, eles tinham que conhecer as leis, saber calcular impostos e ter noções de aritmética.
Os templos, de outras partes demandavam os escribas versados nas ciências sagradas, que pudessem interpretar os velhos livros canônicos, para compor novos, formular as legendas que deveriam ser grafadas nas muralhas dos santuários ou no pedestal das estatuas.
 
Por essas razões nos palácios e templos tinham nas suas dependências que antigos textos denominavam como Casa da Vida, quer dizer, um lugar onde se ensinava a ler, a escrever, além de literatura e ciências.
Os estudantes que faziam sua formação nas escolas do palácio saiam com o titulo de escriba do Rei, e os dos templos eram denominados os escribas de Deus. Os escribas possuíam um pictograma próprio, representado pela paleta. Lê-se sech (sš), (escrever), e faz parte das palavras relacionadas com arquivos, impostos e tributos.
 
 
sš – Pictograma de escriba.
 
Não havia lugar especifico na burocracia para as meninas, mas há indícios de que Meritaten e Mekataten, filhas de Akhenaton, possuíam essas habilidades.
Também na vasta coleção de ostracas, oriundas da Vila de Deir el Medina, algumas testemunham que mulheres e familiares dos trabalhadores eventualmente também aprendiam a ler e a escrever.
Os escribas eram os únicos profissionais que eram reconhecidos como maduros, no momento em que assumia seu primeiro trabalho independente, talvez pela capacitação e pela responsabilidade exigidas à atividade.
           A formação do escriba foi se tornando mais longa e complexo, na medida em que eles precisaram aprender além da hieroglífica, a escrita hierática, uma forma cursiva de grafar aqueles signos, empregada para a redação em papiros. Os gregos denominavam de escrita dos sacerdotes, porque era muito usada para textos religiosos. Em 700 a.C, foi criada ainda um terceiro tipo de escrita, a partir de 332 a.C, com a conquista do Egito por Alexandre da Macedônia, a língua grega foi sendo imposta na região. Os egípcios continuaram a falar sua própria língua mas cada vez menos, porque toda atividade administrativa e pública passou a ser conforme se passaram os séculos e as gerações, a antiga língua egípcia foi se modificando. Os falantes, para facilitar o registro lingüístico, adotaram o alfabeto grego e sete caracteres da escrita demótica, criando sua quarta escrita e uma nova linguagem a cóptica.

ESCRITA

Em 1779 foi descoberta na pequena vila de Rashid, no delta ocidental por Pierre François Bouchard membro dos exércitos de Napoleão que trouxeram do Egito a pedra de Roseta onde estava gravado um texto em três línguas o grego, hieróglifos e demótico.
          Em 1807, Champollion a partir dos nomes próprios do texto grego, ele comparou os outros dois textos até descobrir certas semelhanças, quatorze anos depois, o professor dispunha de algumas chaves para entender o enigma: enfim, a pedra da Roseta e as inscrições de outros monumentos egípcios já não continuam mais em segredo.
          A escrita serve para representar sentimentos, como ódio ou amor, ou ações como amar e sofrer, os egípcios desenhavam objetos cujas palavras que os designavam tinham sons semelhantes aos das palavras que os hieróglifos se referiam a algo concreto, havia um sinal vertical ao lado de cada figura. Se referentes a algo abstrato, havia o desenho de um rolo de papiro. Se correspondessem à determinada pessoa, os hieróglifos traziam sempre a imagem de uma figura feminina ou masculina, mostravam um pequeno sol. Para completar a confusão, os hieróglifos podiam ser escritos da direita para a esquerda ou vice-versa a ordem certa, em cada caso, dependia da direção dos olhos das figuras humanas ou dos pássaros representados.

As estelas

Muitas das estelas encontradas no Egito são de caráter funerário, nelas aparecem uma representação iconográfica e textos, as principais estelas começaram a aparecer na I Dinastia. Elas fornecem a identificação do morto, isto é seu nome e os seus títulos ou cargos. A formula hotep di nesu. Pretende que o rei interceda junto ao deus para que o morto alcance o seu propósito. Começa: “Uma oferenda que o rei outorga...”, seguindo-se o nome do deus invocado, quem visitasse o túmulo devia recitá-la, para que a mensagem da estela se tornasse realidade. Também há estelas votivas que também trata de temas religiosos, costumava ser colocada em lugares sagrados como Abidos, comemorativas: anunciavam ao povo feitos vitoriosos do faraó ou atos que podiam angariar o carinho ou admiração popular por ele e as estelas limítrofes, as mais conhecidas são as que demarcavam o território da cidade de Akhetaton, fundada por Akhenaton.
Papiro Hierático
             Como os documentos administrativos eram ditados as pressas, foi necessário criar um sistema que simplificasse a caligrafia hieroglífica sofisticada, recorrendo a relações. A grafia hierática era habitualmente desenhada com um pincel e escrita da direita para esquerda, em uma composição de colunas ou linhas, segundo os períodos.

A escrita sagrada

            Os hieróglifos como signos sagrados foram utilizados para adornar alguns sarcófagos. Assim, além da função decorativa, formava inscrições com poder mágico, atribuição que os egípcios conferiam às palavras.
            Os hieróglifos enchiam as paredes dos templos, narrando as façanhas dos faraós e dos deuses. Embora os signos fosse uma representação da realidade, para muitos egípcios o seu significado real era incompreensível.  

As cartelas do faraó

           A cartela era um laço que protegia o nomen e o praenomen do faraó. O nomen é o quinto titulo do protocolo faraônico, designa o faraó como filho de Rá, e é o segundo que aparece nas cartelas. O praenomen é o quarto titulo o de rei do Alto e baixo Egito, e o primeiro nome na cartela. O selo de um faraó tinha uma ou varias cartelas. Assim o objeto selado era distintivo da administração do respectivo faraó.

 

O alfabeto

           A escrita egípcia, oriunda de uma família lingüística diferente da nossa, é muito complexa e tem muitos signos. Por isso, os egiptólogos, para facilitar a tradução, adaptaram 24 deles para formarem o equivalente ao nosso alfabeto.

          Tal como outras línguas, o primeiro passo da escrita egípcia foi a representação daquilo que era visto, se desenhava uma boca quando pretendia escrever a palavra “boca”, assim apareceram os ideogramas. Contudo, logo surgiu um problema: como escrever palavras que se referiam a idéias ou conceitos abstratos? Então tiveram a grande idéia de esvaziar de significado a maioria dos ideogramas e atribuir-lhes valor fonético. Se com o símbolo da “boca” se dizia r, esse signo não reapresentaria mais a boca e sim o som r. Assim permitia por exemplo escrever a palavra “nome” que em egípcio se dizia rn, com a união dos signos “boca” r + “água” n = rn.

         Os signos mais simples chamam-se unilíteros e equivalem a um som. Os bilíteros equivalem a dois sons e são em maior quantidade do que os unilíteros, embora muitos possam ser escritos com apenas unilíteros. Por ultimo, existem trilíteros que equivalem a três sons, estes não são em grande numero e na maior parte das vezes se encontra junto com fonogramas unilíteros chamados de complementos fonéticos que assegurava a pronuncia correta das palavras repetindo o ultimo son. Além dos complementos fonéticos existia os signos determinativos que não tinham valor fonético e garantia o significado correto pois algumas palavras eram homófonas, pronunciava-se da mesma maneira mas tinham significados diferentes
 

 

LITERATURA EGÍPCIA
Os textos das pirâmides, elaborados no Antigo Império, são considerados os mais antigos escritos do mundo. Seu entendimento não é fácil; destinavam-se a uso litúrgico e constituem-se de fórmulas mágicas, religiosas e também de orações:
"Se levante, oh, uns. Agarra sua cabeça e junta seus ossos. Une seus membros e sacode o pó das carnes. Leva seu pão, que nunca lançará para perder, e sua cerveja que nunca ficará azeda, e fica antes da entrada que exclui as pessoas comuns. O guardião da porta sai a seu encontro. O leva de mão e te conduz ao céu". (Textos das Pirâmides)
No Médio Império, extensas inscrições eram transcritas diretamente nos ataúdes onde as múmias eram encerradas. Os temas chamados textos dos sarcófagos são equivalentes aos das pirâmides, constituindo-se de fórmulas para o defunto alcançar a imortalidade.
Com as mesmas finalidades, surgiam - no período do Novo Império - os chamados livros dos mortos, que apresentam semelhanças com os textos dos sarcófagos.
Os livros dos mortos
Colocados junto às múmias, escritos em papiros, os livros dos mortos incluem fórmulas religiosas que deveriam ser lidas diante do tribunal de Osíris. Geralmente, esses antigos documentos incluem uma "confissão positiva":
"Não causei sofrimento aos homens. Não usei de violência para com minha parentela. Não substituí a injustiça na justiça. Não freqüentei os maus. Não cometi crimes. Não permiti que trabalhassem para mim em excesso. Não fomentei intrigas por ambição. Não maltratei meus servidores. Não blasfemei contra os deuses. Não privei o indigente de sua subsistência. Não cometi atos detestados pelos deuses"...
"Não levantei a mão sobre o homem de humilde condição. Não fiz chorar. Não fiz ninguém sofrer. Não tirei o leite da boca das criaturas"... (Jean-Marc Brissaud: François Daumas).
 Desde a época do Antigo Império, várias modalidades de obras literárias surgiram no Egito: poesias, ensinamentos morais e políticos, biografias, contos e outras.
 
BIBLIOGRAFIA
BAKOS, Margarete Marchiori. Origens do ensino. EDIPUCRS
www.rincondelvago.com - Libro de los Muertos, Colección Clásicos del Pensamiento, Editorial TECNOS - 1993, 2ª Ed
Revista Egito Mania, O fascinante mundo do Antigo Egito N°s: 04,15, 26, 34. Editora PLANETA

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