segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Viajantes em meio ao império das festas.

Esta é uma resenha produzida sobre o texto de Lilia Schwarcz - Viajantes em meio ao império das festas.

As interpretações dos viajantes do século XIX que se destinavam ao Brasil possuíam em sua bagagem uma cultura carregada pelos conceitos da época, conceitos de uma Europa Ocidental e branca ou Norte Americana também branca de onde vinham a maioria dos viajantes que deixaram seus relatos. Por tanto a estranheza e o preconceito não é algo inesperado. A estranheza dos estrangeiros parece fazer reflexo até hoje, onde muitos estrangeiros vêem o Brasil como uma terra de macacos, floresta e gente “incapaz”, tudo isso regado de preconceito racial e cultural.

As festas no Brasil eram comandadas pela realeza que ordenavam as festas do século XIX, tais festas ganhavam proporções populares e após iniciada a comemoração oficial, a parte popular iniciava o batuque, então o viajante poderia observar os festejos de forma diferente em cada camada social, observando uma cultura enriquecida pela mestiçagem Ibérica, Africana e Indígena, mas essa mistura não era agradável aos olhos do estrangeiro branco Ocidental, o processo de mestiçagem também não era visto com bons olhos pela elite Portuguesa ou Brasileira.

Para os viajantes, mesmo aqueles que eram destinados para o Brasil para analisar a fauna e a flora brasileira, as observações sobre a população eram marcantes como Spix & Martius que estiveram no Brasil entre 1817 e 1820, dois alemães que viam os divertimentos dos negros como extravagantes e promíscuos. O inglês Henry Koster que esteve em Recife em 1809 apreciou as mulheres dizendo que “é entre as mulheres de cor que pode fixar as mais belas, com mais vida e espírito, maior atividade de espírito e de corpo, mais adaptadas ao clima. As feições são boas, e a cor, mesmo quando é desagradável nos climas europeus, não parece mal nesse ambiente.” Talvez pela falta de mulheres brancas Henry Koster tenha despertado o fascínio pelas “mulheres de cor”, como ele mesmo disse. Já em outro período, Carl Seidler que esteve no Brasil em 1825, não compartilhava a idéia de Henry Koster, Carl considerava as mulheres sem virtude, todas “fáceis” e as cerimônias religiosas eram impregnadas de “vícios” e o mulato um “remendo da natureza”.

Outro caso que a autora nos apresenta é sobre a festa religiosa que Daniel Parish Kidder, um reverendo norte-americano metodista que esteve no Brasil entre 1836 e 1842, onde a autora salienta que o reverendo se constrangia com a escravidão e a falta de decoro na cerimônia, mas parece mais preocupado com os “africanos ignorantes” no meio dos festejos religiosos e a falta de decoro na cerimônia com senas imorais na visão do religioso.

“Soubemos que naquela ocasião é que se realizavam as maiores festividades religiosas do ano [...]. Se se tratasse de divertimentos para africanos ignorantes, seriam mais compreensíveis essas funções, mas, como parte de festejos religiosos celebrados em dia santificado e com a presença entusiástica de padres, monges e do povo, temos que confessar francamente que nos chocou bastante e teria sido melhor que não os tivéssemos presenciado. Uma das mais penosas impressões que colhemos foi ver famílias inteiras [...] admirando cenas que não só tocavam às raias do ridículo, mas, ainda , eram acentuadamente imorais – e dizer-se que tudo isso se fazia em nome da religião!” (Daniel Parish Kidder).

Em 1860 o príncipe Maximiliano de Habsburgo, primo de D. Pedro II, se demonstrou curioso com os trajes e atuações frenéticas dos negros na festa do Senhor do Bonfim na Bahia, mas também desagradado pela aproximação dos negros e mulatos com os brancos católicos, cujo príncipe achava desapropriado. Além das festas religiosas, as festas do Império como o aniversário de D. Pedro II ganhava as ruas e os gritos de milhares de mulatos e negros se juntava aos gritos de “Viva D. Pedro II”. O Imperador do Brasil passava em procissão com seu tutor ao lado esquerdo e o regente e opositor a direito como nos informa Seidler em 1835.

Na Bahia Kidder assistiu as comemorações do aniversario de D. Pedro II onde os presidentes das províncias seguiam o exemplo do Imperador com idênticas solenidades, mas sem as honrarias imperiais, no lugar de honra ficava um retrato do Imperador, além dos cortejos as festas duravam 3 dias, iniciando com sermões, no dia seguinte um baile oficial e no terceiro a exibição de fogos de artifício. Kidder esteve no Rio de Janeiro durante a cerimônia da coroação de D. Pedro II com comemorações que durariam 9 dias com grande pomposidade como foi considerada por Daniel Parish Kidder, no dia 7 de setembro em Recife, Kidder faz novas criticas as comemorações onde o viajante dizia que as comemorações não visavam a melhoria do espírito público, mas de serem vistos, ou seja não tinha nacionalismo e sim ostentação segundo Kidder.

As comemorações possuíam um calendário extenso com aniversários dos membros da nobreza, os festejos da elite branca ficavam na sua maioria dentro dos palácios e as ruas ficavam os negros e mulatos, a aproximação dessas realidades se davam nas procissões que tomavam as ruas como a procissão do Senhor do Bonfim, Spix & Martius tiveram a oportunidade de assistir as cavalhadas onde se encenavam combates entre mouros e cristãos, uma representação de São Jorge o padroeiro de Ilhéus ganhava destaque, após a encenação reuniam-se para um banquete e um baile com o “sensual lundu e o quase imoral batuque” segundo Spix & Martius, é claro que pelo andar dos festejos quem encenavam as cavalhadas eram os mulatos e negros.

Apesar das criticas os viajantes procuravam observar as festividades dos negros e mulatos e registrar suas observações e até mesmo participar como fez Koster, que participou do entrudo. Festividade praticada na segunda e terça-feira antes de cinzas, mas poderia começar uma semana antes, utilizavam água e pós para os cabelos para lançar uns nos outros e na falta utilizavam o que tinham a mão, pelos relatos de Koster parecia uma prática divertida. Com todas as visões de depreciação dos estrangeiros que passavam pelo Brasil com suas reprovações diante do modo das comemorações tanto da Elite branco com sua “pomposidade” ou dos escravos ou negros e mulatos libertos com sua “imoralidade” os viajantes jamais encontrariam um cenário igual ao do Brasil com tamanha diversidade cultural e mesmo que a sociedade do velho mundo do século XIX não aprovasse tal situação, muitos desses estrangeiros caiam as encantos dessa variedade e não deixavam de procurar vivenciar ou assistir essas manifestações.


BIBLIOGRAFIA
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Viajantes em meio ao império das festas. In IANCSO, István; KANTOR, Íris (orgs.). Festa: cultura e sociabilidade na América portuguesa. São aulo: Hucitc, São Paulo: Fapesp, 2001.


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